domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Pergunta de Ouro
No dia em que foi criada a rede social Facebook, o meu filho fez-me uma pergunta que iria mudar o resto da minha vida.
Estava no sofá a ver o telejornal com os pés na lareira a fumar um cigarro.
Uma simples pergunta criou-me uma sensação de mau-estar, pôs-me o coração aos pulos e encharcou-me em suor. Qual soco no estomago, senti-me mal disposto após aquela inocente questão colocada por uma criança de oito anos cuja leitura era uma constante, tudo servindo para treinar a sua nova competência. A noite do dia 4 de Fevereiro de 2004 ficaria marcada para sempre. Uma simples pergunta de três dezenas de caracteres…
Fumava hà 25 anos. Se ainda hoje é, na segunda metade dos anos 70 fumar era um sinal de maioridade, de afirmação e quebra de barreiras para um adolescente nascido e criado no Portugal rural dos anos 60. Comecei, como a maior parte, pelo tabaco mais barato, às escondidas a fumar “Mata-Ratos” de alcunha, “Kentucky de seu nome. Doze Tostões na taberna do Semião ou no Café do Zé, doze amargosos cigarros vencidos pela teimosia de miúdos que se queriam afirmar na adolescência.
Ultimamente consumia (o verbo é o mesmo das drogas duras) dois a três maços de cigarros diários, fora os ameaços. À data cada maço custava cerca de três euros, sem bem me lembro. Gastava uma média de sete euros dia, duzentos e dez euros mês e dois mil, quinhentos e vinte euros ano. Deixei de ir ao cinema porque era um martírio estar uma hora sem fumar. Quando foram abolidos os intervalos enterrei definitivamente a possibilidade de ver um filme numa sala de cinema.
Acordava de noite a tossir com os bofes de fora, não aguentava uma simples caminhada, incomodava meio mundo em restaurantes, cafés, no carro, na rua, enfim, o que importava era mesmo o prazer de esfumaçar muito e depressa (ou medo do desprazer de não fumar).
Entrava em pânico completo se desse por mim sem cigarros. Depois de ter que ir mais do que uma vez às bombas da BP do Ramalhão às 3 da manhã, optei por manter um armazém confortável. Passei a comprar aos pacotes de 10 maços. Resolveu-me parcialmente o problema.
Naquela noite de 4 de Fevereiro tive um “Insight”. Caí em mim. Uma simples pergunta de três dezenas de caracteres feita pelo meu filho.
Já anteriormente tinha tido uma experiência de seis meses pouco convicta de deixar os cigarros. Não tinha havido compromisso, não me tinha obrigado a mim próprio a respeitar aquela decisão. Depois de “digerir a coisa”, decidi naquele momento nunca mais voltar a fumar. Decidi que nunca mais voltaria a fumar. Seria a “frio” e sem ajudas de pensos, psicólogos ou qualquer medicamento. Tinha que doer para valer. E doeu…
Após a inocente pergunta e o embate psicológico imediato, deitei com a pressa que pude o nojento maço de cigarros no crepitante fogo da lareira a escassos centímetros. Depois de algumas tentativas pouco convictas e da ameaçadora descrença da Tina nestas fases infrutíferas, decidi calar-me e aguentar a abstinência num tímido e teimoso silêncio. Se não resultasse também não tinha que a ouvir. Mas desta vez a coisa tinha batido. Aquela pergunta do miúdo…
No dia seguinte aguentei-me. Estava de papo cheio e não queria dar o braço a torcer. À noite calei-me bem caladinho e deitei-me com as galinhas. A neura já se estava a apossar da ideia, teimosamente e sem descanso. Linha contínua de dor calada e sentida, só o sono custoso me alheava da dura realidade sem fumo. Lembrei-me inúmeras vezes do cheiroso e perfumado fumo, recheado de memórias olfativas que me agarravam a um passado recente de falso prazer. O corpo estava na fase do reinício do fabrico natural de substâncias que, após o consumo de cigarros, entram no corpo misturadas no cocktail químico que é um simples cigarro. Cerca de três mil produtos químicos compõem esse cocktail.
 Pensei que aguentaria se conseguisse chegar à noite e deitar-me. O objetivo era chegar à noite, dia após dia e durante o maior número de dias possível. A Tina e os miúdos aperceberam-se da repentina mudança de humor. Chegou-me a ameaçar com a compra de tabaco caso eu não contivesse o cáustico humor e a constante verborreia. Engoli em seco e refugiava-me na cama, tentando fazer com que o tempo passasse o mais rapidamente possível afogando a dor no sono sobressaltado recheado com sonhos onde disfrutava de cheirosos cigarros e me interrogava: Que raio! Mas fumas ou já deixaste? Estes sonhos acompanharam-me durante mais de 10 anos, embora cada vez mais espaçados e de menor intensidade. Muitas vezes dei comigo em sonhos em que me via com um maço no bolso e a puxar de um cigarro. Filha da puta de ideia esta…
Se não fosse aquela pergunta do Zeca ainda hoje andava para aí a cheirar mal e a servir de chaminé…
Qual pergunta…
Por inúmeras vezes lembrava-me do poema do Bocage, do tabaco. Cheguei a ir à internet procurá-lo. Cá vai:
Amigo Frei João, cuidas que é barro
O fumoso tabaco por que berro?
Um nigromante me transforme em perro,
Se há coisa para mim como o cigarro!
Ele me arranca pegajoso escarro,
Que nas fornalhas deste peito encerro;
O frio, as aflições de mim desterro,
Quando lhe lanço a mão, quando lhe agarro.
De vício tal, se é vício, não me corro,
E só tomo rapé, simonte ou esturro,
Quando quero zangar algum cachorro.
Amigo Frei João, não sejas burro;
Dize bem do cigarro; senão, morro;
Traze-me lume já ou dou-te um murro!
Qualquer alusão ao vício mantinha-me num estado de confortável esquema mental em repulsa do desprazer provocado pela falta de fumo.
A pergunta do Zeca, feita após ler nos maços de tabaco “FUMAR MATA”:
“Oh pai. Se FUMAR MATA, porque é que tu fumas?”
Perante tão inocente pergunta e não tendo resposta para o miúdo, nunca mais pus um cigarro à boca.
Puta que pariu ao vício

terça-feira, 18 de novembro de 2014

 “Quem não conhece ...”
Por volta da três da tarde daquele domingo solarengo, lá estava ele no festival da Maçã Reineta, no recinto da Sociedade. Sentado na cadeira de plástico cinzenta com pernas de alumínio, escudava-se do quente sol outonal na sombra da tenda montada para o evento. Apresentava-se de botas de cabedal, camisa clara, calça e casaco a condizer, olhar atento e sorriso maroto. Ao longo da sua vida foi e é uma constante este olhar vivo e mordaz, sempre atento, como quem precisa de perceber e viver o que o rodeia, constantemente. Cumprimentei-o, como sempre, tratando-o por Senhor. Há 50 anos que o trato por Senhor, contrastando com um tratamento por “tu” adoptado por quase todos, mais velhos e mais novos. Não é falta nem excesso de respeito, é a forma como me habituei a tratar este Senhor.
Nascido no tempo em que a força bruta e o tamanho da enxada eram quem ditava o vencedor, durante toda a sua vida lutou para contrariar esta tendência, este status quo social com o qual não podia competir. Foi-lhe negada a possibilidade de competir neste “campeonato”, pelo que teve que desenvolver capacidades intelectuais que lhe permitissem competir de igual para igual, num jogo escolhido por si dentro das parcas hipóteses dos idos anos 40 e 50. “A necessidade aguça o engenho”. Assim o fez com muita luta. Deu a volta por cima e desenvolveu um bem sucedido negócio, em conjunto com a sua mulher e filha.
A sua vida foi e é recheada de histórias do melhor que já ouvi em toda a minha vida. Para além de saber captar momentos dignos de registo, também os sabe contar de forma impar.
Praticamente todos nas aldeias de Fontanelas e Gouveia já ouviram falar destas histórias vividas na primeira pessoa ao longo de mais de 80 anos por este personagem singular. Uma vida recheada de peripécias boas e más, hilariantes e aborrecidas, dramáticas e alegres.
Ferrenho adepto do Benfica e ex ferrenho de um partido, quem o quer “picar” basta dizer-lhe que o seu clube já esteve melhor e que qualquer um faz melhor que o actual treinador. A sua clubite aguda permitia-lhe exibir o emblema do seu clube numas fitas plásticas de pendurar na porta de entrada da cozinha. Desapareceram num qualquer carnaval, paga da mesma moeda de um qualquer amigo ou vizinho, aproveitando a época para lhe devolver partida.
Mais calmo porque a idade não perdoa, este Senhor foi um dos maiores fazedores de “Judiarias” (nome dado em Fontanelas e Gouveia a brincadeiras, partidas), mas também a maior vítima de todos. Muitas “Judiarias” fez e muitas lhe fizeram.
No seu trabalho certa vez precisou da habitual mangueira para mudar o vinho de um barril para garrafões. Era dia de caça, a casa tinha muitos caçadores fregueses que estavam à espera e lembrou-se que tinha levado a dita mangueira para casa dos pais. Pegou na mota e lá foi, à pressa, buscar a mangueira. Quando lá chegou perguntou à irmã se tinha visto a mangueira do vinho. A irmã disse-lhe que o Parente (um vizinho próximo) a tinha lá ido buscar. Novamente em passo acelerado, lá foi a casa do Parente. Quando lá chegou perguntou-lhe:
-“Ó Parente”, tens cá a mangueira?”
-“Só se for a do burro!...” responde-lhe o Parente desconcertado, apanhado de surpresa, já que fora ele próprio quem lhe ensinara o recado.
Neste momento cai em si. Fora vítima de sua própria brincadeira, com a ajuda da irmã, já que tinha pregado “n” partidas sobre a “mangueira do burro do parente”, um animal com atributos sexuais fora do normal, bastas vezes chamado à conversa quando se queria troçar de alguém ou de uma situação em particular. Caiu na sua própria armadilha.
Barbeiro, Taberneiro, Merceeiro, e se o tivesse aqui à minha frente dir-lhe-ia, para me meter com ele, outra coisa acabada em “eiro”, Empresário e desde sempre o mais conhecido Agente de Seguros da Mundial Confiança em Portugal (agora Fidelidade-Mundial), com a qual trabalha há mais de 50 anos, cumpridos com zelo, dedicação e honestidade, sendo um dos mais premiados agentes da sua “Companhia”.
Muito mais há para dizer deste Senhor, nascido e criado na aldeia de Gouveia, na Rua dos Pinéus, há mais de 80 anos.
António Caetano da Fonseca, mais conhecido pelo Pinéu, carinhosa alcunha herdada da família.
Bem-haja, Senhor António.
Quem não conhece as histórias do Pinéu?


domingo, 16 de novembro de 2014

A Cabana Da Aguda

A “Cabana da Aguda”
Nasceu em 1970 pela mão do Ti João Ladeiras (João Baleia Freitas) o que se viria a chamar a “Cabana da Aguda”.
Fruto da sua carolice e da sua arte na construção, assim se deu início a um ícone da nossa aldeia até meados da década de 90. Numa fase inicial com petiscos, depressa começou a ter freguesia basta nos meses de Verão para almoços e jantares, atraídos pelo cheiro dos Sargos da Costa na grelha, Sardinhas e Frango de churrasco. Para petiscar, os Pipis bem caprichados à moda do talento petisqueiro do Ti João e todo o tipo de mariscos apanhados na Tabueira e na Aguda, com especial ênfase para os mexilhões de cebolada. Ainda hoje quando me chega este inebriante aroma, activa-se de imediato a memória olfactiva de 40 anos, transportando-me para os cheirosos odores da Cabana da Aguda.
Pouco a pouco o Ti João Ladeiras foi construindo a seu gosto, pedra a pedra, “borneira a borneira”, tronco a tronco, aquela varanda natural sobre a falésia, local espectacular para beberricar e petiscar num qualquer final de tarde entre Junho e Setembro, para quem apreciasse um pôr-do-sol calmo e tranquilo.
A minha primeira incursão na restauração foi pela mão do Ti João, da Ti Dália e do Aníbal (Aníbal Martins Freitas), filho do casal e meu compadre há mais de 20 anos e amigo desde sempre. Aos 11 anos era uma autêntica festa partilhar aquele espaço de lazer, para mim completa novidade absorvida com avidez, num espaço de gente descontraída, em paz, enquanto se lhes proporcionava uma espectacular refeição com os pés na areia, o som das ondas do mar, o cheiro a comida e maresia, uma vista magnífica e o paladar no seu auge, tocando ao máximo os cinco sentidos naquela esplanada com uma cobertura de canas cuidadosamente alinhadas sobre os troncos do tecto. À falta de energia eléctrica da rede, restavam os candeeiros a petróleo, os “Pitromax” e mais tarde em 1987 as lâmpadas de 12 volts alimentadas pela bateria da camioneta Hanomag azul do Ti João, quando o Aníbal e a Florinda reactivaram a Cabana.
Sucessivos “donos” da Cabana da Aguda, como o Jorge e o Tó, que lá estiveram alguns anos, o Jaime, deram diferentes usos a este espaço concebido para bem servir e proporcionar momentos únicos de paz e tranquilidade, quer fosse como restaurante, petiscaria, bar ou casa de fados.
Em meados dos anos 70 ainda se tinha que cumprir o doloroso caminho de areia para chegar ao acesso à Praia e à Cabana. Quando pegava na bicicleta e ia ao encontro do Aníbal, de pouco me valia pedalar na areia cega que teimava em dificultar a descida e mais ainda a subida. Na segunda metade da década foi arranjado o acesso tal como o conhecemos hoje e construído o Largo da Aguda.
A Cabana está construída em terrenos privados pelo que a sua exploração se tornou inviável a partir do momento em que o seu proprietário o proibiu. Também o exigente licenciamento para este tipo de comércio requeria um investimento avultado nas infra estruturas, muito castigadas pelo abandono e sucessivos invernos, pelo que face à inviabilidade de qualquer projecto, hoje está num avançado estado de degradação, sendo utilizado bastas vezes para fins menos próprios.
Não sei o que levou o Ti João a construir este “Santuário dos Sentidos” mas que acertou em cheio, acertou. Nesse longínquo ano da década de 70, ao som do velho rádio Philips AM que o Ti João tinha em cima do balcão, podia-se ouvir alto e bom som nas ondas do Rádio Clube Português “Quieres ser mi amante” do Camilo Sesto ou “Petite Demoiselle”, do Art Sullivan. Também o Demis Roussos e o Nelson Ned tinham poiso regular naquele rádio estrategicamente colocado em cima da prancha de madeira, de dia balcão e à noite portada de segurança para evitar os “amigos do alheio”, “convidados” frequentemente pelo isolamento do local e fraca vigilância, antevendo uma “colheita fácil” de grades de cerveja, Larangina C e bagaço caseiro.
Uma das tentativas de assalto de que a Cabana foi alvo foi particularmente hilariante. O espaço era dividido em duas zonas distintas: O interior da construção, onde era guardado tudo o que podia ter interesse aos ladrões e a parte de fora, da esplanada, de livre acesso de noite e de dia. A parte central da construção propriamente dita tinha uma cobertura de placa com vigas de betão e tijoleira, apresentando alguma segurança contra assaltos. A outra, a parte da esplanada era coberta com as tais canas alinhadas, excepto na zona da grelha que, por razões de construção, tinha uma cobertura de telha vã, suportadas em ripas e barrotes de madeira de pinho.  
Os ladrões subiram ao telhado, retiraram algumas telhas, cortaram as ripas de madeira e vai de saltar para dentro da Cabana, pensaram eles. Quando deram realmente conta “aterraram” na zona da grelha, ficando na mesma do lado de fora da Cabana da Aguda, na zona da esplanada, acessível a quem quisesse entrar pelo seu pé, tranquilamente pela porta da frente sem qualquer percalço.

Obrigado Ti João pelos excelentes momentos que proporcionou a todos quantos usufruíram deste espaço único, deste Santuário dos Sentidos, a “Cabana da Aguda”.




domingo, 26 de outubro de 2014


A 2easy entra no mercado das energias renováveis.
 “Desidratador Solar de Maçã Reineta” tem “0” emissões de CO2, Pegada Ecológica Verde, utiliza uma energia renovável abundante e gratuita, “trabalha” sem vigilância, não sendo necessária a intervenção humana para o seu funcionamento, proporciona um alimento livre de quaisquer gorduras, hidratos de carbono ou açúcares, podendo ser comido de manhã, à tarde ou à noite, em restrições médicas. Apenas se recomenda contenção ao polvilhar com canela.
Um detalhe importante: Só funciona com Maça Reineta de Fontanelas (vá-se lá saber porquê...).
Construído de raiz com um superorçamento e projecto patrocinado pela 2easy, Uma imobiliária, Duas Soluções, estes materiais utilizados, após longa pesquisa nos “calhamaços” da Internet, contou com 4 tábuas de casquinha, um sarrafão de pinho bichado, 2 placas de contraplacado, um vidro reutilizado (que determinou o tamanho da geringonça), meio kilo de parafusos e cinquenta pregos fasquiado 3. Ah, já me esquecia; um pedaço de serapilheira para manter os mosquitos afastados, à falta de rede mosquiteira, e algumas horas na garagem a serrar e pregar.
Poderá ser visto e apreciado no 2º Festival da Maçã Reineta de Fontanelas, a decorrer este fim-de-semana na URDFG de Fontanelas e Gouveia.

Quem disse que as coisas simples não têm piada?


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Nem tirou o capacete...

“Nem tirou o capacete...”

Tenho saudades do Tó Pê.
Só o costumava ver duas ou três vezes por ano, quando cá vinha cheio de saudades das coisas simples que Fontanelas tem. Revia a família e “carregava baterias”. Quando chegava, independentemente da hora, tinha um ritual há tantos anos quantos estava no estrangeiro. Antes de ir para casa da mãe, ia regalar as vistas e tomar um banho de maresia e de mar à Praia da Aguda. Tinha, obrigatoriamente, que sentir a Praia da Aguda.
Não era mau diabo, antes pelo contrário. Se existia alguém com valores morais, pessoais e filosóficos, era o Tó Pê.
O Tó Pê nasceu em Fontanelas no início da década de 60 e foi um dos símbolos dessa geração. Faleceu prematuramente muito novo, na casa onde cresceu, em casa da mãe. António Pedro Borlido, de alcunha o Tó Pê, depressa seguiu as pisadas do seu falecido pai na descoberta do mundo além-fronteiras. Do avô António Pedreiro herdou a veia comunista, por si próprio desenvolveu a contestação, a irreverência, o sentido revolucionário, o que lhe valeu alguns dissabores na sociedade Fontanelense, à data ainda muito pouco tolerante em relação à diferença. Numa aldeia como Fontanelas, sob muitos aspectos fechada, o aconchego a alegados valores morais, religiosos e bafientos “bons costumes”, toldam a visão e escamoteiam a evolução, inevitável e irreversível.
Tinha vontade de ser diferente, de fazer o que as suas crenças lhe ditavam, de ter a liberdade que achava que devia ter. O Tó Pê era único. Numas das nossas últimas conversas, no bar do Janeca em 2007, o Tó Pê estava feliz, tinha os filhos na boa, a estudar e a trabalhar, na sua vida pessoal fazia o que queria, estava ligado à dança e andava a aprender a tocar uma espécie de acordeão de madeira. Também participava em associações culturais, fazia work-shops de dança, fazia o que realmente gostava: interagir, brincar, ensinar e gostar de pessoas.
O Tó Pê não era o típico emigrante empurrado pela vontade de vencer e ter condições financeiras mais favoráveis. Era aventureiro. Gostava de ser livre e correr mundo, apenas pelo prazer de conhecer novas pessoas, novas culturas, novas gentes.
O Tó Pê sempre foi um “lobo solitário”. Sempre fez o que lhe ia na alma e sem “dar cavaco” a ninguém. Na sua juventude e antes de ir para fora, sempre andou sozinho, avesso ao sentido de manada, à “Maria-vai-com-as-outras” que caracteriza a maior parte de todos nós, a nossa sociedade. A preocupação da Sra. Manuela, sua mãe, nunca o impediu de “correr mundo” e estar temporadas fora, a partir dos 17 ou 18 anos.
O Tó Pê tinha piada. Arranjava uma treta qualquer, uma conversa qualquer que todos sabíamos ser treta para nos rirmos. Fazia parte da sua forma de estar e de ser. Qualquer conversa em grupo tinha, invariavelmente, que meter risota e boa disposição. A palavra que caracterizava mesmo o Tó Pê era “alegria”. Era uma pessoa alegre, apesar de ter sofrido algumas agruras ao longo da sua vida.
Gostava de contar anedotas e mentiras teatrais, daquelas que toda agente sabia que era mentira, mas contadas com arte e engenho. Gostava de rir e fazer rir.
Certa vez chegou ao pé da malta na sua moto todo lampeiro e arranjou logo uma mentira, na hora.
Começou por dizer que tinha conhecido uma rapariga que andava de mota na Praia das Maçãs. Conversa mete conversa, era de Sintra, tinha 20 anos, não tinha namorado, uma coisa leva a outra e acabaram na praia, “confortavelmente”.
Epá, deu caldinho?” perguntou o Varetas.
Deu pois” respondeu o Tó Pê.
E a gaja, era bonita?” perguntou o Coutinho?
Responde o Tó Pê: “Epá, nem reparei. Não tirou o capacete...”


Boa, Tó Pê. Enquanto cá estiveste, viveste em pleno...

domingo, 12 de outubro de 2014

A Praça de Sintra

“A Praça de Sintra”
Desde miúdo que comecei a ir para a Praça de Sintra com o meu pai.
Nas madrugadas de Verão de 1978 saíamos às 3 da manhã com a Ford Transit “café-com-leite” novinha em folha, DV-29-21, completamente carregada. Encostávamos com a venda junto ao portão do número 13 da rua Ulisses Alves, em frente à vivenda “O Meu Cantinho”, paredes meias com a Praça de Sintra.
Cenoura e Feijão-Verde eram a principal seara cá da casa. Produzíamos mensalmente nos meses de Verão várias toneladas que, invariavelmente, me passavam pelo lombo, saco a saco, madrugada após madrugada até retornar às aulas no início de Outubro.
Segundas e Quintas eram dias de colheita. O pessoal cá da casa e vizinhas contratadas apanhavam, um a um, o feijão-verde no meio da densa e verdejante folhagem. As cenouras colhiam-se com o “engaço” do Zé Bacalhau. Após separadas da rama eram lavadas, ensacadas e pesadas. Cada saca era pegada mais de dez vezes até estar, finalmente, entregue no carro ao cliente.
Merceeiros madrugadores das redondezas que se iam abastecer ao mercado grossista eram a nossa freguesia. O Ti Zé Galego, minhoto de Melgaço e fumador inveterado de Português suave sem filtro; O Lopes de Rio de Mouro; as Primas das Lameiras e um sem número de fregueses compunham a freguesia habitual. Conhecia-lhes os carros todos e melhor os porta-bagagens, onde aterravam as sacas de cenoura e feijão-verde.
Nos meus 14 anos era uma verdadeira esponja a absorver tudo o que me rodeava.
O cheiro de uma praça de legumes é único, fresco, limpo, transparente, alegre. A minha memória olfactiva inebriou-se recentemente na zona dos legumes do Mercado Abastecedor Região de Lisboa. Lá estava ele, o cheiro. O cheiro intenso do alho francês misturado com o adocicado odor dos coentros, cenoura e hortelã. Vida!
Na Praça de Sintra as pessoas eram genuínas, transparentes e sinceras. A oferta e procura eram diárias e permanentes, naturais e desinteressadas, abundantes e presentes. A conversa era sobre tudo e mais alguma coisa, directa e objectiva. Cada um sabia quem era e quem tinha à sua frente. Não havia máscaras sociais.
A Praça de Sintra era um autêntico “microclima” humano. Ali se cruzavam todos os tipos de pessoas originárias dos mais diversos pontos. Agricultores da zona saloia, merceeiros das redondezas, revendedores da zona Oeste e os “habitués”, pessoas que só lá iam de madrugada pelo gosto de viver o bulício da Praça. Também outros começavam as “hostilidades matinais” na Tasca da Teresa com os bagaços, abafadinhos e brancos traçados, engarrafados vezes sem conta nas usadas garrafas perfiladas na prateleira de madeira escura de tanto baptismo.
Às seis da manhã abria o edifício da Praça. A pé desde as 3 e quase com meio-dia de trabalho, estava na hora de repor as energias com uma sandes de queijo da ilha e um fumegante café-de-saco servido num pesado e riscado copo de vidro, típico recipiente adoptado pela Teresa  da Tasca. Delicioso. Nunca mais consegui o mesmo paladar em lado nenhum.
Naqueles dez minutos de merecido descanso entravam e saíam, como que cumprindo um ritual definido, clientes à vez repondo o combustível necessário para, nas noites mais frescas, acalorar os corpos curvados da idade. Cúmplices trocas de olhar bastava para que as bebidas surgissem como que por magia no poroso balcão de mármore gasto pelos anos de sucessivas madrugadas cumpridas.
Nesse cortejo matinal, destacava-se um casal na casa dos 60. O Sequeira e a sua esposa, donos de uma pacata mercearia de Sintra. O Sequeira, de estatura mediana e altivez constante, contrastava com a sua baixa e engelhada esposa. Cumpriam religiosamente a rotina matinal. Tasca da Teresa, voltinha à Praça. Tasca da Teresa, voltinha à Praça ... .
Ele conversador, jovial e presente. Resistente da moda do bigode à “Clark Gable”, espalhava boa disposição na madrugada ensonada. Ela calada e azeda. Ele de mãos nos bolsos das calças de sarja coçada, boné aos quadrados, casaco de fazenda cinzento e bota de cabedal. Ela de Xaile da cabeça aos pés. Só se viam os olhitos, o nariz e um ralo bigodito. Ele queria comprar Feijão-verde, Cenouras, Pepino, Alho-Francês e Couve-Flor. Ela não.
Na negociata dos legumes falava o Sequeira e sempre com autoridade:
Ó Camacho, a como é que está hoje o feijão-verde?” Indagava dirigindo-se ao meu pai.
O sotaque beirão adquiria especial ênfase na voltinha da Tasca:
Ó Teresa. Bota aí um copito para mim e meio para a minha senhora.” Dizia o Sequeira olhando de soslaio para a sua mulher inchando a peitaça. De imediato era fuzilado com os olhos, adivinhando uma ameaça velada. Emendava num ápice: “Enche os dois, enche os dois...”.
E a Teresa enchia...



Esqueci-me do cachorro no porta-bagagens por 15 dias.

“Esqueci-me do cachorro no porta-bagagens por 15 dias.”
José Valentim Lourenço, de alcunha o Zé Massano.
Certamente a figura mais carismática das aldeias de Fontanelas e Gouveia.
Muito para escrever. Tarefa árdua sintetizar quem era o Zé Massano em meia dúzia de linhas.
Figura central das duas aldeias até 2002 ano em que, prematuramente, faleceu.
Era um lunático bom. Um despistado em pessoa. Uma pessoa fora do tempo. Fazia só o que queria, como queria e o que gostava.
Sempre gostou de animais. A sua Quinta estava sempre recheada de bicharada, mas era tão despistado que uma vez quando lhe deram um cachorro na Malveira, pô-lo na mala do carro, esqueceu-se e lá ficou durante 15 dias.
Todos quanto estávamos a ouvir ficámos estarrecidos. Era uma falta terrível, um animal, sem água, sem comida, o calor...
E o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou o Mascarenhas.
Meteu-se outra conversa qualquer, alguém chegou com uma piada, qualquer conversa com o Zé mudava repentinamente ao sabor do seu raciocínio.
Tudo o que dizia tinha piada. A Piada vinha sobretudo da expressão corporal, dos gestos, da intensidade e do tom de voz. A graça com que dizia as coisas, a forma como contava, o ar alucinado, os olhos esbugalhados plenos de convicção, a capacidade de rir de si próprio, enfim, tudo isto e muito mais, fizeram dele uma figura incontornável das nossas aldeias, da nossa freguesia, do nosso concelho, ...
Mas o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou outra vez o Mascarenhas.
Espera!!!”.
O Zé era muito guloso. Por chocolates, “nougats”, gelados, coisas doces. Em 2000 estivemos na direcção da União Recreativa e Desportiva de Fontanelas e Gouveia e, como habitualmente, cabia-nos a preparação da Festa da Páscoa. Durante essa preparação e nas sucessivas reuniões, descobrimos num armário dois sacos grandes de “nougats” fora da validade mas, aparentemente, bons para consumo. O Zé andou, mirou, cheirou, provou, comeu e “limpou-os” todos em meia dúzia de reuniões. Qual validade, qual caraças. Sempre que olhávamos para o Zé estava ele a desembrulhar o barulhento plástico amarelo desculpando-se, invariavelmente, com qualquer treta arranjada à pressa para todos se rirem.
 “Mas o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou mais uma vez o Mascarenhas.
Qual cachorro?”
“O que ficou na mala do carro por 15 dias!”
Durante muitos anos e antes de ter o talho, o Zé Massano comprava vitelos e gado de leite nas aldeias, vendendo-os de seguida na Feira do Gado, na Malveira. Era prática corrente as famílias terem gado de curral, fornecedores de leite e vitelos, para além do importante estrume, abundante e barato adubo natural para as terras, depois de curtido.
Em minha casa tínhamos um curral com lugar para 5 vacas, uma burra e duas ovelhas. No palheiro contíguo assisti, em miúdo, a um negócio de uma vaca que os meus avós tinham para venda. Lá em casa quem negociava era a minha avó Gertrudes até o meu pai assumir a parte comercial. O meu avô Labareda, Domingos Francisco Franco de alcunha “Tanoeiro”, nunca se ajeitou para negociar nem que fosse um copo de vinho. Dava tudo. Uma desgraça!...
Ó Ti Gertrudes. A vaca só vale 3 contos e quinhentos. É muita nova e ainda não pariu”. Dizia o Zé Massano, argumentando no negócio.
Ripostava a minha avó - “Chega-lhe o boi que ela enche. É da maneira que pega bem.”
Mas a primeira barriga não presta. Morre tudo antes de nascer”. Dizia o Zé.
A vaca vale 4 contos. Está aparelhada como deve ser, não tem ferro e come bem. Dá 5 litros de leite cada mugidela e não pega com as outras”, Ripostava a Ti Gertrudes já a ficar afinada.
Ó Ti Gertrudes. Quatro contos é muito. Depois não sou capaz de a vender a ganhar cem mil réis. Para a conta ficar como deve de ser, a gente divide a coisa a meias e ficamos por aí. Três contos, setecentos e cinquenta escudos e a gente chega a negócio.” Argumentava o Zé.
Mas tu deste 4 contos pela vaca da Maria Mariana a semana passada”. Teimava a minha avó.
Ripostava o Zé - ”Mas era uma vaca feita com quatro barrigas e a dar 15 litros.”
E esta há-de lá chegar. ” mantinha a Ti Gertrudes.
Horas naquilo. Não sei se a vaca foi vendida nem porque preço. O que é certo é que o Zé me disse, 30 anos mais tarde, que “não gostava de negociar com a Ti Gertrudes porque que ela era muita teimosa. Queria levar sempre a dela avante.” Dois teimosos...
 “Mas o que é que aconteceu ao cachorro, pá? ” Inquiriu novamente o Mascarenhas.
Epá, tu és mais chato que a potassa!”
Mas diz lá o que aconteceu ao cachorro”...
Qual cachorro?”
O que ficou na mala do carro por 15 dias!!!!!”
Ahhhhhh. Olha, levei-o para casa.”
Mas morreu?” Inquiriu o Mascarenhas.
Nãaaa. É de louça!

O Zé Massano era assim. Nunca se esgotava. Uma caixa de surpresas e uma risota pegada...  

Telefonia sem licença.

“Telefonia sem licença”
Domingos da Silva “Carrenquita”, ou “Esguicho”.
Personagem digno de referência em qualquer parte. Nunca nada nem ninguém o fez ficar sem resposta. Falava rápido e com resposta na ponta da língua.
Não o conheci, já que faleceu antes de eu nascer. Contudo é figura que vem bastas vezes à conversa quando se quer ter piada e apresentar um exemplo. Conheço os descendentes vivos, e conheci os falecidos, quase todos com a mesma resposta directa e mordaz. O falecido “Patíco” ou Pé-De-Chumbo, Francisco Rodrigues da Silva de seu nome, era o que se podia apontar como sendo uma pessoa com graça genuína, impar. Trabalhava com uma junta de bois, salvo erro herdada do pai, o Galante e o Formoso, animais para amanho das terras antes da entrada em cena dos tractores. Foram a última junta de bois de Fontanelas e Gouveia. Ainda me lembro da chamada aos animais “Ó Galante, ó Formoso”, quando queria comunicar com eles, dar-lhes alento, confortá-los.
Também Henrique Rodrigues da Silva, de alcunha entre dentes “Caricoso”, Riques na sua presença,  meu vizinho de 50 anos, porta com porta, carteiro reformado e barbeiro enquanto as pernas e a  vista o permitirem, sempre com uma conversa engraçada e um ditote apropriado. Enquanto miúdo fui quase criado por ele e pela a Ti Isabel, mulher do Ti Riques. Quando ao Domingo de manhã atravessava o caminho para casa deles, ia directo à “Casa das Barbas” a assistir à conversa dos velhotes que lá iam cortar o cabelo e fazer a barba. O meu avô Domingos Tanoeiro, o Henrique Borracho, Lourenço Maçanico, o Domingos Carrombão, falavam entre si se o tempo ia “à chuva”, “borriçava” ou “ia para Nordeste”. Com sete anitos ninguém me calava. O Ti Riques, farto de me ouvir, perguntava: “Queres ganhar 5 Tostões?” “Quero, Ti Riques.” respondia eu. “Então deixa-te estar calado”, fechava o Ti Riques.
O Domingos “Carrenquita” era assertivo e mordaz na argumentação e discurso, ninguém lhe conseguia dar troco verbal, em qualquer que fosse a situação.
No tempo da guerra em que a fome apertava, era comum os rapazes e raparigas de famílias numerosas irem “servir” para casas de famílias abastadas, aliviando a mesa da cozinha. Normalmente não ganhavam nada, apenas sopas de pão, uma manta carregada de pulgas, umas calças com fundilhos e um pontapé no cú. 
Quando um dos filhos aos 9 anos foi servir para Janas para casa do Minguitos Bordalo, este ficou espantado quando ouviu do Carrenquita: “Não é preciso dar de comer ao rapaz”.
 “Ah não? inquiriu o Minguitos.
 Remata o Carrenquita “É só pôr à frente que ele come sozinho”.
Noutra ocasião andavam os fiscais à procura de quem tinha telefonia sem licença. Quem não tivesse licença a telefonia era confiscada, com direito a apreensão imediata.
Vinha o Carrenquita a caminho da Taberna da Viúva, estavam os fiscais na mercearia. Abordaram-no e perguntaram se ele tinha telefonia. Responde: “Tenho sim, senhores.” “E tem licença?” perguntaram. “Não senhores, não tenho.” retorquiu o Carrenquita.
Como é que se chama e onde mora?”- perguntaram.
Chamo-me Domingos da Silva “Carrenquita”, mais conhecido pelo “Esguicho” e moro em tal parte.” Vão andando que eu já lá vou ter”.
Assim foi. Foram andando e perguntando e lá chegaram, quase ao mesmo tempo que o dono da casa.
Ao chegar à porta perguntaram: ”Então onde é que está essa telefonia?”
Grita o Carrenquita: “Ó Maria Domingas”.
Sai de lá a Maria Domingas a ralhar com ele quanto podia: “O gado está todo para tratar, foste para a taberna, não tiraste a cama aos bois, as vacas para mugir, és um malandro, só pensas em beber vinho, ... “ .
Vira-se o Carrenquita para os fiscais: ”Aqui está a telefonia! Não tem licença, não se cala, toca alto e podem levá-la quando quiserem”.

Mas ficou...

Beba à vontade e sem medo.

Beba à vontade e sem medo
Propriedade do Ti Zé e da Ti Firmina, o “Café do Zé” foi, durante várias décadas e até 1981, o centro da aldeia de Fontanelas.
As tabernas perderam clientela nova e fresca para o café, mais inovador, com oferta moderna, como bica, bagaceira ou brandi fino. O cheiro a vinho retardado, associado a uma clientela mais rústica e pouco exigente, afastava esta nova vaga de freguesia ávida por bebidas finas, bolos quentes e gelados Olá.
Era no café do Zé que miúdos, graúdos, veraneantes e outra gente se encontravam. A esplanada sobranceira à estrada era uma autêntica torre de vigia e não permitia que alguém passasse por Fontanelas sem ser objecto de controlo apertado. Era aí que todos se encontravam e iniciavam a malandragem juvenil, os primeiros copos, os primeiros namoricos, os primeiros cigarros Mata-Ratos.
Autênticos torneios de futebol se deram na esplanada e na rua principal, em frente. Quando vinha a GNR, cuidado. Dava direito a multa de 33 escudos por jogar à bola na via pública. Também a “casa dos bonecos”, como era chamada a sala dos matraquilhos e das máquinas “flipper”, iniciou a miudagem toda na arte de fumar às escondidas, bater caricas para substituir moedas de 10 tostões ou roubar as máquinas electrónicas, quer fosse com um arame de fardo no moedeiro ou com um berbequim manual.
Roubar pastilhas, gelados e bolos da montra também fazia parte das habilidades dos miúdos mais atrevidos. Os pastéis de nata feitos pela Ti Firmina davam um “bigode” a qualquer “Pastel de Belém” mais afamado, sem direito a tornas. O Ti Zé era polivalente e palmilhava quilómetros a arrastar os pés, ininterruptamente, acudindo às mesas ou ao balcão. Quando o Suca pediu se podia mudar para o segundo canal o Ti Zé perguntou, pondo a mão atrás da orelha: “Fresca ou Natural?”.
O “Menino”, carinhosa alcunha do Alberto e único filho do casal, também lá trabalhava afincadamente, embora muitas vezes ausente por “má disposição”, alegava a Ti Firmina.
O café do Zé era, para além de “café”, um conhecido e afamado restaurante, onde o Cozido à Portuguesa era rei, sem menosprezar o Cabrito ou o Bacalhau. Longas filas anteviam uma generosa refeição em qualquer Domingo solarengo de Janeiro a Dezembro.
O Staff era numeroso e familiar. Uma grande parte da juventude de Fontanelas e Gouveia, masculina e feminino, passou por lá a trabalhar aos fins-de-semana ou no Verão. Aqui se fizeram bons profissionais que seguiram o seu caminho na restauração ou noutra qualquer área profissional, sempre com a bênção do Ti Zé e da Ti Firmina, autênticos patriarcas do bom acolhimento e da boa-vontade com os clientes e com os empregados.
Das oito à meia-noite, sete dias por semana, quatro semanas por mês, doze meses por ano.
Muito deram o Ti Zé a Ti Firmina ao lazer de milhares de pessoas de sucessivas gerações que passaram pelo Café do Zé e dele disfrutaram. Tanta dedicação só podia gerar no sucesso que gerou enquanto restaurante, até e após encerrar como café em 81.
Tive o previlégio de trabalhar com o Ti Zé no Café Coreto ao longo de centenas de duras horas de trabalho, sem que lhe possa apontar o que quer que seja.  
Provavelmente só quem tiver mais de 50 anos se lembrará de uma quadra escrita nuns velhos azulejos rachados, mantidos unidos por uma moldura de sólida madeira escura. Transmitia confiança ao freguês mais medroso, dissipando receios de uma possível “cadela” causada pela abusiva ingestão de bebidas alcoólicas. Engalanava a parede junto à televisão, mesmo por cima da mesa de tampo metálico onde, habitualmente, o Dr. Tavares passava longas tardes a ler calhamaços técnicos, a fumar “I Life” e a bebericar cálices de brandy “Mosca”.
Contudo, a quadra não era totalmente verdadeira, ou por outra, reflectia precisamente o inverso da prática vigente, ou seja:
Beba à vontade e sem medo - Ninguém podia beber à vontade e sem medo, cuidado porque a bebedeira era certa.
Se ficar de grão na asa - Era uma certeza ficar de grão na asa e não “se”.
A gente guarda segredo - No dia seguinte já todos saberiam, qual segredo, qual carapuça... .
E vamos levá-lo a casa  - Levá-lo a casa, népia. Curtia a bebedeira no local ou ia pelo próprio pé. Havia ainda a hipótese de uma alma caridosa pegar no carrinho do gás e carregar até casa o necessitado.

Beba à vontade e sem medo!!!
O que será feito desta histórica moldura com os azulejos rachados?
Ainda sinto o cheiro da “casa dos bonecos”. Um misto de óleo dos matraquilhos, fumo de tabaco e barris de vinho.

As coisas que me vêm à cabeça....

Maçã podre cai sozinha.

“Maçã podre cai sozinha”
Em Fontanelas e Gouveia, grandes zangas se deram por questões de partilhas.
Famílias inteiras cortaram relações por questões relacionadas com a divisão da herança dos pais e avós. Era comum caminharem para Sintra em disputa de uma extrema de meio palmo  ou três pinheiros mansos. Qualquer coisa que não estava em modos, tribunal., quando não terminava tudo com uma sacholada nas fontes.
Gastavam dez vezes o valor da herança em advogados tarimbados nestas disputas de aldeia e iam sendo chupados a troco da promessa de que iriam ganhar a acção. Somavam-se as perdas de meios-dias a caminhar para o advogado, de chapéu na mão e passo acautelado. O ego não perdoava e sair vitorioso era a paga maior, independentemente do custo. Era um ponto de honra levar de vencida a contenda. Era preciso que a aldeia ficasse a saber quem tinha razão!
 “Não queres lá ver que o teu irmão quer o pinhal? Queria mais nada, não?” Dizia a Bombarda ao Tóino Marreco em jeito de aviso, não fosse o marido prometê-lo ao irmão.
Se ela olha mais alguma vez assim para mim, vou-lhe à cara”, dizia a Clotilde ao Chico Gordo depois das picardias no enterro da sogra por causa do cordão de oiro.
O Zé Rabeca foi ameaçado de forquilha pela Marieta, depois de lhe dizer que só ficava com a Terra do Alto se o matasse. Esteve quase...
Já a coitada da Lisete teve que fugir. Se não desse um pulo para o lado, o João Manias, que era cunhado, passava-lhe com o tractor por cima por causa de uma talha de barro, em disputa ia para 6 anos.
No meio de tanta picardia, existiam alguns que simplesmente deixavam as coisas correr, quer por não terem posses para litígios, serem pessoas mais pacatas ou simplesmente não era da sua índole gerar discórdia e criar conflitos.
O Tóino Marreco, opinioso e banana, a aturar a Bernarda há mais de 30 anos, que era cabra como tudo (em vez de ser duas casas estragadas foi só uma), quando os velhos fecharam os olhos e tocou a partilhas, prepararam tudo para ficar com as Terras de Semeadura, Pinhais e Pomares de Maçã Reineta, afastadas da aldeia mas com bom rendimento. Valiam muito mais do que Serrados, Quintais e bocados cheios de pedra dentro da aldeia, quer pela sua dimensão, quer pela sua utilidade. A Bernarda “Pintou a manta” ao Moca e à Ernesta. Ameaçou, fez banzé no posto leite, queixou-se na loja das ratas, foi falar com as vizinhas a dizer mal dos cunhados, chamou-lhes tudo, falou com a bruxa da Várzea, prometeu um cordão à Sra. de Fátima, só para levar a dela avante e ficar com o quinhão melhor. O Moca, coitado, sem posses nem ânimo para contrariar a cunhada nem o irmão, lá concordou e assinou a partilha e o seu prejuízo. À data o Dr. Ulisses, vizinho de longa data, pessoa séria e experimentada nestas lides e com as vistas rasgadas até à nuca e sabendo da contenda, disse-lhe para não se preocupar que eles iriam ficar a ganhar, com o passar do tempo.
Nem mais.
Os pinhais foram consumidos por um valente fogo no Verão seguinte. Ficaram só cavacos e pontas queimadas. As terras de semeadura deixaram de ter utilidade, já que eles estavam a caminhar para velhos, sem forças, a jorna encareceu muito e não eram propícias a maquinaria. Deixaram de ter rendimento e ficaram de campo, bem como os pomares de Maçã Reineta que tinham que ser podados, cavados, sulfatados e raposados á unha. A herança desvalorizou para uma quarta parte ao fim de cinco anos. Já do lado do Moca e da Ernesta, os Quintais, Serrados e outros bocados dentro da povoação valorizaram para a construção, passando a valer dez vezes mais do que na altura da partilha, quando entrou um PDM que excluiu para construção todos os terrenos que estavam fora do perímetro urbano, onde se encontravam aqueles que lhes tinham sido negados. Passados dez anos o arranjo do Moca e da Ernesta era muito melhor do que o do Tóino Marreco e da Bernarda. Nessa altura o Moca, que tinha ficado com a conversa do Dr. Ulisses na ideia, perdeu a vergonha e perguntou ao vizinho:
Ó Sr. Dr. Ulisses. Porque é me disse para não me apoquentar com a minha cunhada?
Responde-lhe prontamente o Dr. Ulisses:
 “Ó Moca. Maçã podre cai sozinha, não é preciso apanhar”.

E caiu...